Meditações de um operador de caixa (e-book)

Meditações de um operador de caixa (e-book)
Modelo: 978-989-8377-69-2
Disponibilidade: Em Stock
Preço: 9,84 €
Sem Impostos: 8,00 €
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Mesmo se a circunstância que vai envolvendo os nossos percursos é de desânimo suficiente para suspender o mais afinado dos automatos, se por todo o lado testemunhamos, com a indiferença que a nossa própria protecção interior exige — fazendo de nós versão mínima de nós próprios — o crespúsculo daquilo que nos vai mantendo de pé no meio das tempestades, consumindo lentamente em braseiros moribundos as imagens daquilo que salva, redime, cura e religa, nem por isso se pode assinar por definitivo o óbito da voz. Se a acomodação àquilo que magoa, que desencanta e dói invade os templos das luzes das anteriores crenças e os deixam em ruínas, não nos podemos admirar que a voz rompa fora do terreiro do que outrora talvez fosse sagrado (mesmo sem o sabermos), da autoridade ou do prestígio daquilo que nos legou um futuro por ter sido promessa do passado.
Talvez por isso não seja de estranhar o facto de que, por detrás de uma máquina de acumulação de numerário, a voz rompa como fonte da luz que fomos desbaratando como coisa garantida, porque recuperável e imitável num simples girar de interruptor. Talvez que o lugar dessas vozes seja fruto de uma qualquer deslocalização cujas consequências ainda não calculemos ou queiramos levar a sério como coisa a merecer uma atenção e tratamento mais cuidados do que aquele que, em fugazes pausas, lhe dedicamos com ocasional leveza.
Mas se há coisa que este trabalho de Luís Inácio me obrigou, como leitor, foi à profunda humildade da escuta. Da escuta daquilo que ninguém aceitaria ouvir fora de um registo humorístico com que, na minha opinião, o autor protege aquilo de mais importante tem a dizer a uma específica surdez do tempo que também é o nosso.
Ninguém me convencerá que este livrinho não é nada mais nada menos do que um teimoso esforço de oferecer companhia a todos os que não queiram ainda desistir da persistência num rumo que permita levantar a cabeça sobre os quotidianos esmagamentos graças aos quais (e talvez esteja a ser idealista aqui) dizemos a nós próprios que não temos tempo para pensar e, por isso mesmo, que sabemos tudo, procurando muito pouco. Menos ainda do desconforto sempre reprimido quando a atenção é constantemente mobilizada por “oportunidades” infindas e sucessivas de adquirirmos um pedaço de esquecimento do que nos rodeia e de nós mesmos a preço de saldo.

 

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