Tempos Ocos /Temps Creux

Tempos Ocos /Temps Creux
Modelo: 978-989-99960-8-3
Disponibilidade: Em Stock
Preço: 15,00 €
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Autor(a): Cláudio Guimarães dos Santos

Nota de imprensa

 

Não é raro que aqueles que são habitados ou visitados pelo dizer da palavra poética reflitam sobre essa matéria fugidia, obreira que faz abeirar o insondável no persistente desafio pela procura de horizontes outros. Uma tal reflexão torna-se ainda mais premente em tempos que condenam a escuta dos ecos em que se desmultiplicam possibilidades e hipóteses de vida, preferindo as certezas que roubam ao pensamento a vitalidade da aventura e da meditação.
No presente livro de Cláudio Guimarães dos Santos, a poesia não é vista na imagem degradada que a reduz a uma expressão de emoções ou a narrativas pessoais de vida, mas como um apelo à passagem do plano ôntico ao ontológico, ou seja, ao plano onde ocorre a disponibilidade para nos interrogarmos sobre o enigmático sentido do ser.
Movida pelo poder de um dizer que cria contornos de visibilidade, a escrita do autor cruza com a inquietude interrogativa própria de quem se espanta e admira, abeirando o fundo filosófico da vontade de decifrar uma realidade que contudo mantém sempre o fundo misterioso do seu jogo de desvelamento e ocultação.
Cláudio Guimarães dos Santos mostra-se, neste livro, extremamente sensível à questão de saber que tempos são estes em que vivemos. E, de algum modo, é sob o pano de fundo da resposta que delineia esta pergunta — mas também no registro de uma melancolia própria dos momentos de balanço em que a consciência da finitude fala mais alto — que os poemas se vão sucedendo.
A escolha do título “Tempos Ocos” para o poema inaugural do livro não é inocente: ele funciona como um enquadramento que marca o tom, o qual, de uma forma mais ou menos presente, vai ressurgindo ao longo da coletânea. Eis algumas passagens ou expressões que exemplificam o diagnóstico dos nossos tempos: "nau sem rumo", "ignorar o inevitável da morte", "palavras sem sentido", "fluorescência das telas", "Escrevem, mas não leem, / Falam, mas não escutam, /E não se calam nunca", "Se viver sem ter sentido é a marca do nosso tempo", "Hoje, os deuses já partiram para o ocaso", "Por que a pressa indelicada destes dias? / Por que a fúria assim deselegante?".
Com efeito, muitos dos poemas são perpassados subliminarmente pelo tema do desequilíbrio entre o sagrado e o profano, ou seja, pelo esvaziamento da graça e do mistério que pauta a finitude humana, e a sua substituição por uma posição de consumo reduzida ao gozo de um efêmero que já não acolhe nem deslumbra. Por isso, o livro, repleto de referências a personagens do nosso legado cultural, contrasta frequentemente a grandeza que eleva o humano e a decadente errância a que a vida tantas vezes parece reduzida. Neste contraste é clara a preferência do autor por uma tradição humanista que enaltece as artes e a busca do impossível: "Não te engajes em nada / Que não seja Arte pura / (Para sempre inalcançável),".
Se vivemos em tempos que se afiguram ocos, apocalipticamente esvaziados, e nos quais o esquecimento das origens foi consolidando uma vida sem promessa da qual o sentido se ausentou, nem por isso o poeta perde os pontos cardeais da sua bússola existencial. Na forma poética da sua meditação, ser e tempo estão irmanados e, se o presente é filho do passado e do futuro, então o valor da memória assoma como constitutivo do sentido do humano caminhar. E, quem diz memória, diz também origem, uma categoria necessária ao lastro das narrativas com que damos contorno ao acolhimento das realidades passadas e presentes, e preservamos, sem dele desistir, o misterioso porvir: "Como será, / Num futuro que, espero, está distante, / O tempo em que meu filho não terá mais pai?".
Para concluir estas breves — e certamente insuficientes — palavras sobre a presente obra do poeta Cláudio Guimarães dos Santos, impõe-se dizer que, representando este belo e consistente livro uma incursão pela palavra poética feita a partir de uma grandeza tecida de humildade e de uma reflexão que reconhece os limites da finitude humana, nem por isso ela deixa de estar eivada de uma vitalidade simultaneamente amadurecida e esplendorosa que nos convida a ousar — e que eu, como orgulhoso editor, vos convido a desfrutar.

Rui Grácio
Coimbra, julho de 2018

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