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Estrela do céu, estrela do mar (e-book)
6,36 €

Apresentação de Rui Grácio

Estrela do Céu, Estrela do Mar

Lisboa, 6 de Fevereiro de 2010

Muito boa tarde a todos

O meu nome é Rui Grácio e sou o editor da obra cuja apresentação hoje nos reúne aqui, ou seja, o livro infanto-juvenil «Estrela do Céu, Estrela do Mar». Foi escrito por Sophia Chedas e ilustrado por Francisco Salvado.
Queria, antes de mais, agradecer à direcção do Colégio Militar Naval o acolhimento que deu a esta iniciativa, disponibilizando este espaço não só para a apresentação do livro como, também, para a exposição das ilustrações que para ele foram expressamente elaboradas.
Queria, finalmente agradecer a todos os presentes a vossa comparência e fazer votos para que esta sessão seja do vosso agrado.
Hoje compete-me também dizer algumas palavras sobre este livro agora partilhado com o público.
Antes disso, todavia, queria dizer que este não é o livro de estreia da Sophia.
Em 2007, e através da Magna Editora, a autora fez a sua primeira incursão pelo mundo da escrita infanto-juvenil com um livro intitulado «O menino que queria a Lua».
Independentemente da evolução que se possa ter registado — e que entendo que se registou, por razões que mais à frente assinalarei — queria começar por salientar que, tanto quanto pude percepcionar, estamos perante uma autora que tem uma relação intensa com a escrita, intensidade que me atreveria a descrever arriscando dizer que para a Sophia a escrita é a janela da vida e do mundo, uma varanda a que precisa de retornar cada vez que precisa de pensar no mundo e de se procurar a si mesma no mundo.
As bases que, um pouco intuitivamente, apresento para uma tal afirmação são resultado da leitura que fiz dos seus dois livros e de alguns outros textos a que tive o privilégio de aceder.
Em todos eles a percepção que tive, independentemente do tema e do género, foi a sensação de que neles se joga o fluxo da vida nas sua contingências, incertezas e incógnitas e que a Sophia as retoma animando as suas narrativas com um dinamismo eivado de seriedade e, muitas vezes, de dramatismo.
Digamos que, em termos gerais, as suas narrativas são sempre modos de interrogar a natureza humana na componente trágica dos seus desafios, a sociedade nos contrastes dos seus conflitos, encontros e desencontros, e a acção no seu sentido nunca claro e definido mas, ainda assim, premente e inexorável e relativamente ao qual as aprendizagens são sempre incompletas e estão sempre por vir.
Nada, por conseguinte, nestes livros infanto-juvenis, como morais a retirar ou mensagens educativas que se querem transmitir pensando na educação e no lazer dos mais jovens, de um ponto de vista expressamente pedagógico e didáctico.
Pelo contrário, a atitude da Sophia é outra. Se os seus livros são instrutivos, é porque ela partilha experiências e narrativas que simultaneamente são capazes de cativar os leitores e deixá-los a reflectir. Há, na sua escrita, uma aliança entre o sabor e o saber, mas não uma atitude correctiva e ortopédica.
E este é, na minha opinião, um auspicioso sinal de que estamos perante uma autora capaz de criar obra literária (mesmo que dirigida aos mais novos) e não apenas livros para crianças.
Digo que é um «sinal» porque a criação literária, se entendida como algo que deve comportar uma grandeza própria, é um ofício de grande exigência e requer maturação contínua.
Penso que a evolução do primeiro livro, «O menino que queria a Lua» para este, «Estrela do Céu, Estrela do Mar», já é visível nomeadamente quanto ao doseamento da concentração.
Se no «Menino que queria a Lua» uma situação específica, a saber, a duma criança que queria a Lua, deu azo a planar por um sem número de considerações sobre a vida, as pessoas e o mundo — e aqui o elemento dispersivo torna-se algo complicado do ponto de vista da concepção literária — já em «Estrela do Céu, Estrela do Mar», ainda que o macrocosmos humano não deixe de ser evocado através da focalização que é feita do microcosmos do mundo aquático e dos seus habitantes, temos uma narrativa mais concentrada e burilada na sua sequência e nos seus desenvolvimentos.
Para o dizer de outra maneira, a uma certa ânsia de, por assim dizer «querer meter tudo no texto» — que por vezes se regista em quem se está a iniciar na experiência da escrita —, em «Estrela do Céu, Estrela do Mar» temos já um muito interessante doseamento da narrativa que articula uma acção cativante, com diversos momentos de suspense e com um ritmo de acção muito bem conseguido. Parece-me, de facto, um texto muito equilibrado.
Outro dos aspectos que queria salientar é o facto da Sophia escrever com grande sensibilidade e acuidade, manifesta na escolha criteriosa das palavras e sua sequenciação, sem cair no facilitismo da escolha de termos fáceis e, ao mesmo tempo, sem recorrer a termos rebuscados. A medida da sua escrita parece-me, nesse sentido, adequada ao que realmente se pode chamar literatura — e não apenas um livro — infanto-juvenil.
Mas, feitas estas considerações gerais e mais abstractas, mergulhemos agora nas páginas do livro, imitando, de algum modo, a Estrela do Céu caída no oceano.
Com efeito, o mote do livro é esse: uma estrela do Céu cai no oceano Pacífico. Este acidente transformar-se-á num incidente no harmónico recife em que a Estrela do Céu acaba por ir parar e onde encontra uma sua semelhante, mas diferente, a Estrela do Mar.
A queda da Estrela do Céu é assim o momento para nos depararmos com um microcosmos aquático, formado por criaturas marinhas e com um nicho ecológico próprio, mas muito similar, na sua organização, ao mundo humano. Se não vejamos:
• neste pequeno mundo existe um ancião, de nome Cascazul e ele é o representante da sabedoria, da prudência e da autoridade (e aproveito para ler uma passagem)

«— O que será?
— Nunca vi uma coisa assim!
Nenhum tivera, ainda, a coragem de se aproximar da pinta que brilhava sem cessar algures entre os corais do recife. Estavam a esgotar as hipóteses. O que seria aquilo?
Reuniam-se com frequência no coral do ancião Cascazul, um caranguejo muito procurado pelos restantes habitantes do recife devido à sua vasta experiência pelos mares e praias do oceano Pacífico. Enquanto pensava, recolhido sob a sua carapaça, todos permaneciam em silêncio para não o perturbar.
Quando, finalmente, Cascazul abriu os olhos e estendeu as perninhas em forma de pinça, todos sustiveram a respiração. E ele falou no seu tom cansado, lento, monocórdico:
— O melhor é não nos aproximarmos da coisa» (pp.4-5).

• existem relações familiares, de cuidado, e sociais, de ordem e de cooperação, entre os membros da comunidade marítima (e aproveito para ler outra passagem);

«Viu-a chorar o garboso Cavalo Marinho. Parou para a consolar.
— Estrela amiga, conta-me as tuas mágoas! — E rematou com um relincho airoso. Se tivesse crinas teria amparado os pêlos antes de se sentar ao lado da pobre estrela triste, que escondia os olhinhos sob os seus cinco braços.
— Não sei da Estrelinha! Tenho medo que algum humano a tenha apanhado nas areias amarelas…» (p. 9)

• existem medos — e a estrela do céu é inicialmente chamada de «a coisa», mas há também curiosidade, relativamente ao que é diferente e estranho e também histórias longínquas por detrás de algumas personagens (e volto a aproveitar para ler mais uma passagem);

«O labro estava fascinado com as palavras mágicas da estrela do céu. Oxalá tivesse tido a sorte de ser uma estrela do céu e conseguir ver todas essas coisas portentosas.
Os outros animais aguardavam o trabalho do labro, mas ao vê-lo parado, escutando a estrela do céu, correram a avisar Cascazul.
— Ele foi enfeitiçado… — Lamentou o caranguejo. E abanou a carapaça para acentuar a tragédia da ocorrência. — Eu irei lá fazer o que deve ser feito!» (p. 18)

• e existem sentimentos de solidariedade que estão no centro da acção (e ainda, mais uma passagem).

«Sob si e o encorpado Cortavento os peixes iam diminuindo de tamanho. Agitavam as barbatanas e mergulhavam de seguida, retomando fôlego. Repetiu para si: “vou ter saudades” e deu por si a enxugar uma lágrima negligente que lhe escorria pelos braços cada vez mais gélidos. Podia contar as horas que estivera imergida nas águas da praia. Como era bonita, vista dali de cima. O mar não era como o céu. Os peixes conviviam uns com os outros, partilhavam emoções. As estrelas conversavam, à noite. Durante o dia, dormiam. No entanto, no meio de tantos pontos cintilantes, sentia-se sempre tão só… Oxalá pudesse viver no mar…» (p. 28)

Com efeito, a acção desta história divide-se em dois grandes momentos: o do aparecimento da estrela do céu no fundo do mar, com todo o burburinho que um corpo estranho causa, ainda que ela tenha com semelhanças à estrela do mar, e o da tentativa de devolver a estrela ao firmamento de onde caiu.
No primeiro momento assistimos à passagem de uma desconfiança inicial para uma situação de encantamento, admiração e solidariedade por esse elemento estranho e que brilha.
No segundo momento, a acção reveste-se de dramatismo e coloca-nos numa situação de vida ou morte: será que é possível salvar a estrela do céu caída no mar?
Deixarei aos leitores, como é óbvio, descobrirem a resposta através da leitura.
Mas quero, todavia, chamar a atenção para algumas passagens que me parecem muito significativas, mais precisamente, para duas:

«Aquela criatura esquisita, feita de luz, parecia-lhes dizer, sem palavra alguma, que ainda não era tarde, que podiam escolher como gastar o tempo que lhes restava» (p. 32)

«O seu final, no entanto, não podia ser mais verdadeiro: uma pequena lágrima mágica comoveras as forças da natureza. Viera directamente do céu e, ao gotejar, ecoou por todo o oceano» (p. 38).

Espero também, pela minha parte, que este livro, pleno de pequenas delícias afectivas e de muita sensibilidade literária não só vos agrade como, também, vos faça descobrir uma escritora promissora, detentora de uma imagética muito interessante e que soube, neste livro dosear cinematograficamente, diria, a narrativa que apresenta.
Não posso terminar estas palavras sem fazer uma referência ao autor das ilustrações.
Para além de me parecer que as ilustrações e o texto estão entrelaçadas de uma forma muito conseguida, num uníssono que causa envolvência, parece-me que a recriação do universo marítimo, a figuração das personagens, o movimento expressivo que lhe é imprimido, o equilibro das cores e a diversidade de ambientes que consegue criar são obra de artista.
Amador — creio que assim se apressará a dizer o próprio — mas eu direi que nos amadores há uma pulsão muito genuína, capaz de aliar a beleza da criação com a saúde do equilíbrio e da dádiva.
Penso, por conseguinte, que sem ser ostensivo ou pretensioso, este livro é profundamente equilibrado e uma pequena pérola que partilha a riqueza da sensibilidade.
Essa foi, aliás, a razão porque o acolhi, enquanto editor e pela qual me orgulho de o ver agora posto à disposição do público.
Espero que apreciem este livro tanto quanto eu.

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