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Margem fluida
10,00 €

Sessão de apresentação de Margem fluida, de Ricardo Grácio
Loja do Sr. Falcão, 7 dezembro 2019
Rui Alexandre Grácio

Muito boa noite a todos

O meu nome é Rui Grácio e estou aqui aos papéis, quero dizer, pelo menos em três papéis ao mesmo tempo: o de editor, o de pai e o de apresentador.
Como editor, quero agradecer à gerência de A Loja do Sr. Falcão o acolhimento que deram a esta sessão destinada a apresentar o livro de poesia “Margem Fluida”, de Ricardo Grácio e quero também agradeçer a comparência de todos os presentes.
Como pai – babado – para, perante vós, agradecer à vida por poder ter o meu percurso acompanhado pela presença de três filhos maravilhosos. Um deles, o que está aqui, escreveu (e já vai no quarto livro) a obra que hoje nos reúne aqui.
Como apresentador, cabe-me fazer o que a seguir vou fazer: partilhar em voz alta as retas, as curvas e as contracurvas que a leitura deste “Margem fluida” me fez assomar ao espírito.
Vamos então à apresentação.

Dividi-a em três partes. Uma dedicada à ideia de poesia e à relação dos poetas com a poesia, outra dedicada ao autor e, finalmente, a última dedicada ao livro que aqui nos reúne.

Da poesia
É frequente os poetas refletirem sobre a poesia. É natural escreverem sobre o trabalho a que se dedicam, nomeadamente quando esse trabalho mistura simultaneamente as dimensões do desafio, da exigência, do compromisso e do rigor criativo.
Dois poetas, de quem eu particularmente gosto, escreveram palavras densas e elucidativas sobre o modo como entendem a poesia: Sophia de Mello Breyner Andressen e António Ramos Rosa.
Como gosto de ver o Ricardo na companhia dos melhores, penso que atentarmos nas palavras destes dois poetas é um bom caminho para compreendermos melhor o universo da poesia.
Vejamos, então, o que Sophia de Mello Breyner Andressen escreveu da poesia e da sua relação com ela:

«A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.» (Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia, Edições Ática, p. 94)

E ainda, numa outra bela passagem:

«A poesia não explica, implica. O poema não explica o rio ou a praia: diz-me que a minha vida está implicada no rio ou na praia. (…) É a poesia que me implica, que me faz ser no estar e estar no ser. É a poesia que torna inteiro o meu estar na terra». (Sophia de Mello Breyner Andresen, O nome das coisas, Edições Salamandra, p. 75).

Também António Ramos Rosa escreveu o seguinte sobre a palavra poética:

«o poema não se oferece na imediatidade de uma presença ou de uma evidência sem mistério, mas mantém permanentemente a tensão dos contrários na obscuridade de uma matéria fugidia e abissal. (…) A palavra poética é uma criação em que a relação do sujeito ao objecto não é a expressão adequada de um pelo outro mas relação livre e, como diz Nietzsche, “transposição insinuante, balbuciante numa linguagem completamente estranha”» (A. Ramos Rosa, A Parede Azul, Editorial Caminho, p. 33).

Assim, segundo as palavras de Sophia e de Ramos Rosa, a poesia é uma arte de ser e de ser no limite ou, mais precisamente, no limite como polo de superação, como exercício de atenção e como chamamento de inteireza. Algo que nos faz voar na palavra para além do mundano, para um lugar onde o aberto da tensão apela a configurar hipóteses que não requerem prova para serem possíveis, incisivas, sugestivas, compactas.
Também neste livro — e talvez procurando dar uma pista para o registo da sua própria escrita poética — o Ricardo finaliza com um texto intitulado «No poema». Diz o seguinte:

No poema

Nada é oculto nem distante
Não são seus o segredo e o profundo
Nem o sinal não mostrado
Nem cultiva o inusual ou o novo
Mas cresce por vezes no tempo
Em que o óbvio anda longe dos olhares (p. 71)

Diria que a poesia é para o Ricardo uma forma do pensamento se desafiar a ele próprio, ensaiando configurações outras, modalidades e possibilidades apartadas das evidências próprias do arrasto quotidiano e, em algumas vezes, em irritação com essas evidências e como forma de as combater.
Mais, e na sequência de uma tese que advogou num livro intitulado “‘Não percebo poesia’ – Anotações preparatórias para uma viagem de exploração e mapeamento a um continente desconhecido”, o essencial da poesia não é da ordem do significado, mas da ordem da polinização criativa.
Assim, não é tanto o significado, ou seja, aquilo que seria suposto cada poesia querer dizer, aquilo que a torna fecunda mas, antes, a forma como ela pode servir de desencadeador de sentidos e multiplicador de possibilidades. A poesia arranca-nos do habitual e do familiar, expõe-nos ao não-imediato, ao que requer encontrar hipóteses interpretativas que, no entanto, se mantêm em suspenso e em aberto.
“Clareira” é um termo que o Ricardo usa por vezes. Não porque a clareira seja um lugar onde se veria de uma forma iluminada e mais profunda algo que anteriormente aparecia na penumbra e de uma forma obscura e confusa.
Pelo contrário, a “clareira” é uma espécie de húmus de possibilidades onde pulsa o apelo da criação. Um lugar de vertigem e transcendência. E, para o Ricardo, esse é um lugar de maravilha. Pode ser um lugar de inquietação, mas, para glosar o camarada José Mária Branco, “essa coisa é que é linda”. E quando Ricardo utiliza a palavra “clareira” no presente livro, associa-a a lume. Escreve:

Persiste ainda
A clareira
Para onde ajudaste
A trazer o lume

Ou seja, o movimento, o crepitar, um lugar onde as formas se movem e se configuram na fluência de um processo, mas também um lugar prazeroso e acolhedor.
Penso que sobre o registo em que o Ricardo cria poesia e se relaciona com a poesia, já disse o essencial. Por isso passarei agora a algumas breves palavras sobre o autor para dizer duas ou três coisas que sei dele.

 

Do autor
Quem o conhece mais de perto reconhece-lhe facilmente virtudes como a sensibilidade e a inteligência, a honestidade e a dimensão ética que o faz importar-se com as pessoas que considera, antes de mais, como iguais.
Tem o sentido comunitário inscrito no coração e adora partilhas que possam fazer crescer.
Tem uma imensa dose de autodidatismo, não porque não goste de receber o que os outros lhe possam ter para ensinar, mas porque prefere incorporar e apropriar as suas aprendizagens como algo que resulta de um caminho feito com passos próprios e não apenas do seguir ou repetir passos dos outros.
Quero com isto dizer que o Ricardo não gosta de dissociar a dimensão técnica da dimensão vivencial, o que se faz e se é capaz de fazer, da motivação para o fazer. Por isso preza muito a autonomia e a integralidade. E é também por isso que se diz – e é – um homem sério.
Aliás, um homem sério e hospitaleiro. Pois não é uma prova de hospitalidade abrir a porta a quem se reconhece talentoso e com ele partilhar a terra onde o potencial das sementes, e as suas promessas, podem florescer?
Penso que foi isso que o Ricardo intuiu quando quis partilhar o seu espaço de semeadura criativa, em forma verbal, com a semeadura criativa, em formato de ilustração, que o João Marques trouxe a esta obra. E quero dizer ao João que as suas seis ilustrações fazem toda a diferença neste livro, transformando-o num objeto ainda mais rico, significativo e belo.
Pode parecer que tenho estado a desfilar um conjunto de elogios ao Ricardo. E é evidente que é isso que tenho estado a fazer.
O que já será menos evidente é que os atributos que aqui verti como elogios refletem-se frequentemente em aspereza existencial e vida algo dura do ponto de vista da compreensão convivencial e dos afetos sociais.
Nada de novo, aliás, se pensarmos no estigma que pesa sobre os filósofos ou de todos aqueles que, mais do que se orgulharem em cumprir as regras dos jogos, gostam mais de participar na invenção de regras para os jogos ou de melhorar as regras já existentes.
Nada de novo, também, se pensarmos que nos nossos dias o sentido de comunidade foi sendo comido pela ilusão do individualismo: o todo poderoso indivíduo com o seu leque opções personalizadas é o novo ignorante da cena política, o novo alheado da comunidade, o novo alienado pela comunicação social e pelas tecnologias, o novo impotente para a transformação do mundo.
Ora o Ricardo tem virtudes ligadas a valores sólidos, maturados com o lastro dos tempos e com a luta dos homens e não a pseudo-valores voláteis que mudam ao sabor modas efémeras e cuja liquidez rima, afinal, com uma livre (e leve) irresponsabilidade. Em sintonia com isto, vale a pena lembra que o primeiro cd musical que o Ricardo gravou se chama “Coisas com tempo”.
E estas são duas ou três coisas que eu sei do Ricardo. É, como referi já, generoso, e por isso escreveu neste livro:

Apenas soubéssemos
Dar e receber
Sabiamente (p. 42)

A sua seriedade é vigilância, a sua vigilância é preocupação com a comunidade, a sua comunidade ainda está por vir. Escreve:

Aqui
Onde mãos querem lançar-se
Como raízes que ganhassem
Uma nova terra para os homens (p. 51)

Mas ele persiste e, entre outras atividades, escreve. Escreveu este livro sobre o qual, para finalizar, vou dizer também algumas palavras.

 

Do Livro
Esta obra — que talvez tenha subjacente e ideia de “liquidez” que o sociólogo polaco Zygmunt Bauman apontou como uma das características dos nossos tempo — articula o que supostamente contém e o que é contido, a margem e o leito. Todavia, aqui a margem não surge como sólida e estável, antes é referida, no título do livro, como “Margem fluida”. É que no leito correm as águas e o movimento das águas tem também a sua vida. No poema que tem o mesmo título do livro – Margem fluida – podemos ler o seguinte:

XVIII

Margem fluida

As coisas são o que são
Quer dizer:
O devir da margem difere
Do fluir da corrente.
Por vezes o lamentamos (p. 34)

 

A formulação filosófica que estas palavras me sugerem é a ideia da dificuldade do sentido num mundo não só em em constante devir, mas em devir humanamente acelerado e generalizado. O que lamentamos é, no fundo, a desarmonia e a desproporção. E lamentamo-lo porque isso faz escassear o alimento vital da alma — o sentido.
O título deste livro aponta assim, simultaneamente, para a liquidez e para o fascínio/dor pelo jogo movente das formas, a tensão entre a liquidez metamorforma e a estabilidade das infra-estruturas.
Uma das formas de ler um livro de poesia é concentrarmos na terminologia usada reincidentemente ou nas ideias que pontuam recorrentemente a escrita. Isso ajuda-nos a perceber o clima, o registo e o ambiente no qual o livro foi gestado.
É partindo dessa perspetiva, que aqui deixo algumas palavras sobre esta obra.
Nela encontramos recorrentemente o tema da água, a que se associam ideias como o fluir do rio, o movimentamo do mar, o transbordar, a jangada, a travessia, a margem, bússola, a vida como navegação.
Mas, se a vida pode ser encarada como uma navegação, como é concebida essa vida nas águas que nos levam e nas águas em que vamos?

Em primeiro lugar trata-se de uma vida marcada pela finitude: somos um intervalo e uma janela. Ou, nas palavras do Ricardo, um “intervalo sequioso de aparições”. Porém, cuidamos desse intervalo sequioso como se de uma unidade se tratasse – uma vida – e por isso tentamos articular o sentido do percurso, as suas aparições, os seus acontecimentos.
As ideias de origem e de nascimento tornam-se então proeminentes na escrita do Ricardo, surgindo como momentos mágicos, momentos de eclosão do que é ímpar e decisivo.
Momentos que há que cercar de atenção e de carinhos. E relativamente aos quais há que se ser hospitaleiro. Há que dar hospitalidade a esse corpo lançado ao tempo e ao espetáculo do mundo, rodeando-o de luz, dessa luz auroral que, como escreve o Ricardo, expande em vez de restringir, pois é uma luz que derruba muralhas.
Depois, as metáforas da terra e do seu cultivo transferem-se para esse intervalo existencial que somos. Somos semeadura para cultivo e por isso acalentamos a promessa, a promessa de ser, a promessa de crescer. Ora, do crescimento do pensamento faz parte a palavra-casa e a casa das palavras na qual podemos receber, no dizer do Ricardo, “a imponderável carícia”.
Aliás, a hospitalidade que o Ricardo concebe para a existência passa muito pela capacidade de preservar e de resistir ao tempo que tudo corrói e passa também pela imagem da lareira a crepitar, uma espécie de anfiteatro de partilha aquecida por laços de proximidade

XXXVI

Não hesites.
Não receies
Bater à porta.

O lume está aceso.
Sem que viesses
Seria só cinzas. (p. 61)

Complementaria este poema com três linhas de um outro poema:

Que feliz termos vindo a ser afluentes
Vagarosos companheiros inventando
Um sentido para a viagem. (p. 62)

A felicidade dos encontros improváveis ajuda a ensolarar a vida e empurra-nos para a ventura dos caminhos do que é amplo.
E isso é, provavel e superlativamente, o amor, um amor sem sombra de pecado ou de aprisionamento; pelo contrário, um amor que liberta.

XXXV

Como simples
Mas sã pegada
No teu percurso:

Eis como te quero,
Como me partilho.
E que voes
Perto, longe:
Livre pássaro a caminho (p. 60)

 

A liberdade cruza aqui com a tarefa aberta do esforço de libertação, com a vida como percurso cheio de surpresas e contingências, mas no qual a criação de laços e o sentido de comunidade, quando acontece, é de algum modo redentor.
Para fechar estas minhas palavras, vou deixar, em jeito de conselho e de convite à leitura do livro, mais um poema do Ricardo, que, sendo belo, parece-me sintetizar muito do que aqui disse e permite-me deixar por dizer o tanto mais que ainda poderia falar.
Antes dele, apenas o agradecimento a todos, mas particularmente ao Ricardo, por todas as aprendizagens e momentos de prazer que está parte comungada da travessia me tem proporcionado.

XXXVIII

Conserva contigo
Apesar do que corre
Uma luz de semente
O lugar da nascente
E uma ideia de terra (p. 63)

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