­

Gracio logo 2019 loja

Carrinho vazio
Sursum Corda
SURSUM CORDA. Voando à superfície
15,00 €

Este pequeno livro é como um voo à superfície da realidade, que abarca um período temporal de meia dúzia de anos, ao longo dos quais Portugal e o mundo sofreram um conjunto de profundas alterações. A Hipótese de Gaia, velada ou revelada nos textos, será, com grande probabilidade, o paradigma no qual vai assentar, num futuro já menos distante, a nossa reflexão sobre a vida e o que fazemos ou deixamos de fazer nela. Será a consciência dessa hipótese, a de que a Terra a que temporariamente pertencemos é um organismo Vivo e Consciente, um Espírito em evolução para estados superiores de perfeição, que nos há-de salvar.

- Salvar de quê?

- Da ausência de sentido.

Sursum Corda

Apresentação por Rui Grácio
Sursum Corda. Voando à superfície, de Bruno Santos
Sessão de apresentação na Holliday Inn Gaia, em 14 de dezembro de 2019

 

Muito boa tarde a todos os presentes

Quero agradecer antes de mais, a vossa presença nesta sessão de apresentação do livro Sursum Corda. Voando à superfície, de Bruno Santos.
O meu nome é Rui Alexandre Grácio, sou o editor desta publicação e, neste caso, serei também um dos apresentadores da obra.
Todavia, antes de proferir algumas palavras sobre a obra, queria contar-vos um pouco sobre o modo como a publicação deste livro aconteceu.
Recebo com frequência originais enviados por pessoas que têm o desejo de publicar. E assim aconteceu com o Bruno Santos. Na sequência de uma divulgação editorial que fiz, o Bruno telefonou-me e, depois de uma breve conversa, mandou-me um e-mail lacónico em que anexava um original.
Depois de ler o original, respondi-lhe:
«Acho que tem o dom da escrita, gosta de pensar fora da caixa, tem opiniões bem fundamentadas, humor q.b. (corações ao alto) e dedica-se a matérias e observações que interessam a quem considera que a dimensão filosófica do pensar — ainda que tão silenciada nos dias de hoje — é algo que interessa e é fundamental. Por isso, caso mantenha o interesse, estou disponível para o editar.»
Mesmo sem ter outros conhecimentos e informações sobre o Bruno (que só mais tarde pesquisei na net), a partir daqui, o processo desenrolou-se de uma forma muito escorreita e célere e, em menos de um mês, pude dizer-lhe «Habemus libro».
É claro que não é vulgar as coisas acontecerem assim. E só aconteceram porque foram impulsionadas por uma sintonia intelectual espontânea, uma empatia, que logo se converteu em motivação.
De facto, a leitura do original do Bruno proporcionou-me um enorme prazer. Tinha, havia pouco tempo, publicado um livro, da autoria de Rui Pereira, sintomaticamente intitulado «Pensar em tempos de não-pensamento. Notas para uma analítica do brutal na contemporaneidade» e eis que me chegava um texto cuja característica principal era o exercício e o gosto pelo pensamento! Coisa rara e merecedora do meu apreço.
Mais, era um texto que fazia o difícil compromisso entre o nível filosófico do pensar — ou seja, aquele em que se conceptualiza, se articula, se questiona, se analisa, se critica e se propõe — e acontecimentos com relevância sociopolítica (no seu sentido mais lato) para o nosso destino comum.

Suponho mesmo que foi esse compromisso que levou o autor à escolha quer do subtítulo «Voando à superfície», quer do próprio título, com a dose de ironia que comporta: «Sursum Corda» (Corações ao Alto).
Para mim, que desde sempre naveguei pelas águas do questionamento filosófico, os textos que lia (e é bom dizer que este livro reúne um conjunto de textos que refletem e intuem sobre o mundo e sobre diversos assuntos relevantes para a nossa vida uns com os outros) eram atravessados por uma inquietação essencial: a interrogação e a busca do sentido.
Pude aliás confirmar isso mesmo quando, na fase final da produção do livro, o Bruno me enviou o seguinte texto para a contracapa:

Este pequeno livro é como um voo à superfície da realidade, que abarca um período temporal de meia dúzia de anos, ao longo dos quais Portugal e o mundo sofreram um conjunto de profundas alterações. A Hipótese de Gaia, velada ou revelada nos textos, será, com grande probabilidade, o paradigma no qual vai assentar, num futuro já menos distante, a nossa reflexão sobre a vida e o que fazemos ou deixamos de fazer nela. Será a consciência dessa hipótese, a de que a Terra a que temporariamente pertencemos é um organismo Vivo e Consciente, um Espírito em evolução para estados superiores de perfeição, que nos há-de salvar.
- Salvar de quê?
- Da ausência de sentido.
Sursum Corda

Mas, feita esta introdução em jeito de narrativa, voltemo-nos agora para os conteúdos do livro.
Uma das coisas que mais me chamou a atenção na primeira análise que fiz do livro foram os títulos. Eis alguns que me pareceram muito sugestivos:
“Abrir Abril”,
“O apogeu social do idiota”,
“A marcha do fascismo”,
“Vigiar e punir”,
“A homeostase do capitalismo”,
“Viver ou ser vivido”,
“A miséria da riqueza”,
“O Iluminismo fascista”,
“Geometria do pavor”.

Tal como os títulos são curtos e incisivos, os textos são também escorreitos e breves. Numa escrita fluente e bem arquitetada, o Bruno circunscreve com mestria aquilo sobre o que quer refletir e desenvolve de uma forma eloquente os seus raciocínios e argumentos, por vezes deixando a pairar uma certa suspensividade, outras apelando ao humor e, outras ainda, formulando as interrogações e as observações que parecem lhe essenciais.
Só mais tarde — na realidade, quando comecei a preparar este texto — é que procurei mais informação sobre o Bruno e percebi a sua filiação política bem como o seu envolvimento ativo na cena política. Fiquei também a saber que já publicou várias obras e que, para alem de outras artes, cultiva há muito a atividade e o prazer da escrita.
No entanto, aquilo em que me interessa focar é no conteúdo do livro que aqui nos reúne.
Como disse, ele é composto por um conjunto de textos — mais precisamente, por 82 textos.
Uns fazem voos mais razantes à realidade e aos seus acontecimentos e circunstâncias, outros planam de uma forma mais distante, refletindo e especulando em torno de intuições e hipóteses originais.
De qualquer forma, todos são perpassados pela preocupação de apresentarem informação relevante para o tema em apreço (e devo confessar que eu, como leitor, aprendi muitas coisas que não sabia e pensei em muitas outras que nunca me tinham ocorrido) e desenvolvem perspetivas sugestivas, bem construídas e fundamentadas.
Há contudo temáticas que aparecem de uma forma mais reincidente: uma é a do estado e a do destino de Portugal; outra é a das relações de poder e seus mecanismos; outra ainda é a da curiosidade sobre ser humano e o sentido da existência.
E há também, deve salientar-se, uma atitude bem recortada na forma como lida com todas estas temáticas: por um lado manifesta-se sempre apreensivo com as atrofias provocadas pela opressão, por estados de subjugação, pela menorização da inteligência e por manipulações de vária ordem. Por outro, a desconstrução a que procede não pode deixar de ser atravessada por um sentido crítico que frequentemente recorre à ironia como modo de colocar em evidência certos paradoxos e incompreensibilidades.
De qualquer modo, ao procurar expor os mecanismos das relações de poder, o autor procura apresentar um caminho para lhes fazer frente, numa rota que prefere a libertação, a autonomia e uma capacidade mais cidadã e esclarecida para vivermos juntos. Nesta sua estratégia, não raras vezes recorre a histórias e a parábolas como forma de fazer pensar e tirar ilações.
Alguns dos textos cujos títulos elenquei mais acima, tocaram-me particularmente e queria referir-me brevemente a alguns deles.
Começarei por aquele que, com belo efeito retórico, foi intitulado “Abrir Abril”. É um texto sobre os malefícios do período dito de “ajustamento”, o período da “troika”, e nele o que é realçado são os efeitos, em termos de transformação da mentalidade, que foram produzidos.
De facto, a atribuição da responsabilidade de crise ao comportamento da população, bem como a passagem dos sentimentos de culpa, de medo e de temor, abriram caminho ao discurso da TINA (There Is No Alternative), ou seja, ao caminho da subserviência, da servidão, da resignação, da perda de uma autonomia mínima e de condições sem a qual não podemos falar de dignidade.
Abriu ainda caminho ao esplendor dos ditames dos capitalismo liberal, numa lógica de total submissão ao poder e às necessidades do dinheiro.
A interiorização desta ambiência representou um verdadeiro acanhamento e retrocesso em termos de mentalidade, coisa que ainda hoje permanece bem visível na docilidade perante a subserviência e na resignação silenciosa à obediência mesmo quando consideramos estúpido ou para lá dos limites razoáveis aquilo a que obedecemos.
Este retrocesso foi um fechamento de Abril. E, de facto, tem o Bruno razão ao escrever que é preciso abrir Abril, ficando nomeadamente de olho na relações de poder que tornam a inteligência obsoleta, e que, praticando a surdez perante argumentos, utilizam a comunicação unilateral como forma de impor, ignorando o assentimento, a vontade e a liberdade de participação da outra parte.
De certa forma no mesmo sentido vai o texto intitulado “Viver ou ser vivido”, Digo de certa forma, pois aqui é a volatilidade do nosso pensar perante mecanismos ideológicos de influência persuasiva que está em causa. Se, como aconteceu com a representação do ato de fumar, em pouco tempo podemos passar de um polo para o seu oposto, numa admiravelmente rápida transformação do senso comum, como não ficar a pensar até que ponto somos marionetas das representações sociais veiculadas pela agenda da comunicação?
Outros dos aspetos que me agradou no livro — até porque em tempo eu próprio escrevi um texto intitulado “A ideia de um mundo melhor e o fascismo pós-moderno” – foram os dois textos dedicados ao fascismo. Um intitulado “A marcha do fascismo” e outro “O Iluminismo fascista”.
No primeiro texto, e partindo da legislação que visa “descoisificar” os animais, mas que ao mesmo tempo tem no seu reverso o imperativo de um controlo total de cada animal por via eletrónica, é posto em evidência que este caminho é provavelmente algo que futuramente será aplicado aos humanos. Sabemos que o par liberdade-segurança precisa de ter um balanço muito fino, mas nos nosso dias, o argumento da segurança parece ter mais força e leva a aceitar o inaceitável. Eu próprio me refiro muito vezes a estes fenómenos equiparando a internet a uma imensa “manjedoura” e designando as plataformas informáticas, sempre elaboradas sob a bandeira de uma organização mais eficaz, como “cabrestos informáticos”.
No segundo texto, a afirmação de que o fascismo ronda, liga-se não só aos ditames de uniformização provenientes das políticas da Europa Central, como se estende ainda às práticas políticas e partidárias que, ainda que sob a bandeira verbal do pluralismo, visam na realidade erradicar a dissidência e anseiam por impor o pensamento único.
Não é de estranhar, assim, que neste livro surja também um texto intitulado “O apogeu social do idiota”. Se me detenho neste texto, curto mas muito forte, é porque o autor muito acertadamente associa a idiotice a uma “lobotomização ética e moral”.
O sociólogo polaco Zygmunt Bauman inventou também uma expressão para apontar este fenómeno. Chamou-lhe “adiaforização da ética”, ou seja, o afastamento das considerações éticas e morais da avaliação das nossas ações. Outros pensadores falaram de uma “sociedade de meios sem fins”, uma sociedade na qual predomina a racionalidade instrumental e na qual se assiste à despolarização dos valores com a correlativa perda da capacidade de discernir o certo é o errado.
Penso muitas vezes que esta incapacidade para discernir o certo e o errado de um ponto de vista ético e moral está ligada à avalanche de proliferação do supérfluo e do redundante tão ao sabor dos desígnios do espírito capitalista e ao seu ideal de negócio e crescimento infinitos. Esmagados por tantas coisas que nos chegam em catadupa, não temos tempo para avaliar, acabamos a surfar na novidade, a guiarmo-nos pela comparação social e a chafurdar na miséria da riqueza.
É que, como o Bruno ressalta noutro texto, o capitalismo é animado por uma dinâmica perpétua e os seus processos de homeostasia visam justamente essa perpetuação. Uma perpetuação que significa contudo destruição e não é por acaso que hoje está na ordem do dia a questão das alterações climáticas e da preservação da terra como ecossistema que possa continuar a servir de casa para os humanos.
Coisa estranha para mim é que hoje se acentue a situação de emergência do nosso ecossistema e que os políticos — que na realidade se assemelham a pregadores impotentes — não ousem questionar e trazer para cima da mesa o sistema capitalista, os modelos de crescimento infinito e o reconhecimento de que a deificação do homem e do seu poder de controlo é uma ilusão com consequências provavelmente apocalípticas. É que, como escreve o Bruno no artigo intitulado “Physis”, hoje vivemos “longe da gramática discreta da Physis grega, que nos ensinava a unidade primordial de tudo e nos integrava de modo harmonioso no conjunto infindo de fenómenos e movimentos vitais que toma o nome de Natureza.”
De qualquer forma, O autor deste livro parece acalentar alguma esperança. Penso que tem um fascínio especial pelo conceito de “homeostasia”, ou seja, um mecanismo de auto-regulação que faz tender para o equilíbrio.
Ora, isso parece remeter para a Hipótese de Gaia, sobre a qual se pode ler na Wikipédia o seguinte:

“A hipótese de Gaia, também denominada como hipótese biogeoquímica, é uma hipótese da ecologia profunda que propõe que a biosfera e os componentes físicos da Terra (atmosfera, criosfera, hidrosfera e litosfera) são intimamente integrados de modo a formar um complexo sistema interagente que mantém as condições climáticas e biogeoquímicas preferivelmente em homeostase.”

Quem sabe, pois, se não haverá um caminho que nos permita libertar deste céu carregado com os signos de morte e rumar para um horizonte no qual a vida possa continuar a ser dita pela boca dos homens e recuperar algum do sentido que foi perdendo.
Quem sabe não estava Holderlin certo quando escreveu, “onde existe perigo / cresce também aquilo que salva”.

Em suma, trata-se de um livro muito estimulante, de leitura fácil (dado estar repartido em textos que podem ser lidos de forma independente), com temáticas relevantes, oportunas e bem escolhidas, que abre horizontes ao leitor e que está muito bem escrito, seja do ponto de vista da arquitetura do discurso, seja do ponto de um estilo que sabe manter do princípio ao fim a curiosidade de quem lê.

­
© 2010-2020 Grácio Editor | Livraria online