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Razões e Paixões

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Humberto Simões: No fundo, o que diz revela que tinha mesmo vontade de fazer uma retrospectiva da sua vida, não pode contestá-lo.

Manuel Maria Carrilho: Talvez, talvez, mas com alguns cuidados, o principal é o de evitar a ilusão de, ao entrar nesse jogo retrospectivo, se cair na ilusão de pensar que, finalmente – é sempre fatal, este finalmente – se vai poder dizer “a” verdade sobre si próprio, corrigir os equívocos criados, desmentir as mentiras, etc. Não, as coisas não são assim, é de uma enorme ingenuidade pensar que, através do estratagema da autenticidade, se pode impôr, na história ou no espaço público, uma qualquer versão única do que quer que seja. Como é igualmente ingénuo pensar que é a verdade que modela e organiza o espaço intersubjectivo em que, seja a que título for, pretendemos dizer o que fizemos e o que somos. Não, tudo isso é criado, modelado, estruturado, tanto pela verdade como pela ficção. No entanto, atenção, não se trata aqui de opôr a ficção à verdade, mas de compreender a singular conexão que existe entre elas e, sobretudo – como diz Pascal Quignard no título de um belo livro – de perceber e assumir que “a vida não é uma biografia”.